Tarsila do Amaral: a mulher que colocou o Brasil em cores

Conheça Tarsila do Amaral, suas principais obras, o Abaporu, a antropofagia e a importância da artista para a arte e a cultura brasileira.

Vamos entender um pouquinho sobre arte hoje? E aqui traremos uma representante de peso da arte brasileira.

Algumas pinturas a gente reconhece antes mesmo de saber o nome do artista.

Talvez você já tenha visto uma figura com pés enormes sentada diante de um cacto, rostos alinhados em diferentes tons diante de uma paisagem industrial. Talvez tenha se deparado com aquelas cores fortes, os verdes, amarelos, azuis e vermelhos tão característicos.

Essas imagens pertencem a Tarsila do Amaral, uma das figuras mais importantes do modernismo brasileiro.

Sua obra ajuda a contar uma parte importante da história da arte brasileira: o momento em que artistas passaram a buscar novas maneiras de representar o país, misturando referências internacionais com paisagens, personagens, cores e elementos da cultura brasileira.

Quem foi Tarsila do Amaral?

Tarsila nasceu em Capivari, no interior de São Paulo, em 1886, em uma família de fazendeiros. Ainda jovem, estudou arte.

Mais tarde, passou um período na Europa. E foi em Paris que entrou em contato com movimentos de vanguarda que estavam transformando a arte naquele momento.

Quando voltou ao Brasil, essas referências encontraram algo que já fazia parte de seu próprio universo: as paisagens brasileiras, as lembranças de infância, as cores, os personagens e elementos da cultura do país.

Tarsila não simplesmente copiou aquilo que estava vendo na Europa. Ela começou a transformar essas referências em outra coisa.

E é aí que sua pintura fica realmente interessante!

Antes do Abaporu: uma artista procurando seu próprio caminho

Na década de 1920, ela passou a desenvolver uma pintura cada vez mais ligada à ideia de representar o Brasil de uma maneira nova.

Em obras como A Negra, Morro da Favela, São Paulo e Carnaval em Madureira, aparecem personagens, paisagens e elementos que dialogam com o cotidiano brasileiro.

A artista não buscava necessariamente reproduzir a realidade como uma fotografia. Ela deformava, simplificava e reorganizava aquilo que via.

As proporções podiam mudar. As cores podiam ser intensificadas. Uma paisagem conhecida podia ganhar uma aparência quase imaginária.

Essa liberdade é uma das características que tornam sua obra tão reconhecível.

Por que as cores de Tarsila chamam tanto a atenção?

Quando pensamos em Tarsila, provavelmente pensamos em cores: verdes intensos, azuis, amarelos, vermelhos e rosas.

Elas também fazem parte da maneira como a artista constrói seu próprio universo visual.

Em vez de reproduzir uma paisagem exatamente como ela seria vista, Tarsila podia transformá-la em uma composição muito mais vibrante e imaginativa.

Essa liberdade ajudou a criar uma linguagem visual que se tornou muito associada à ideia de brasilidade na arte moderna.

Abaporu: a pintura que mudou tudo

Em 1928, Tarsila pintou Abaporu como presente para Oswald de Andrade, seu então marido.

A pintura mostra uma figura com corpo desproporcional, pés enormes e uma cabeça pequena, sentada diante de um cacto e sob um sol forte.

É uma imagem estranha. E talvez seja justamente essa estranheza que faça com que seja tão difícil esquecê-la.

O nome da pintura vem do tupi e foi associado à ideia de “homem que come gente” ou “antropófago”.

A obra impressionou Oswald de Andrade e se tornou uma das referências para o movimento antropofágico, que propunha uma relação criativa com as influências culturais estrangeiras: em vez de simplesmente imitar a cultura europeia, seria possível absorvê-la e transformá-la a partir de uma perspectiva brasileira.

É daí que surge uma das ideias mais interessantes do modernismo brasileiro.

Afinal, o que significa “Antropofagia”?

Não estamos falando de antropofagia no sentido literal.

A palavra foi usada como uma metáfora.

A ideia era “devorar” aquilo que vinha de fora e transformá-lo em algo novo.

Imagine uma receita na qual existem ingredientes de diferentes lugares, mas não simplesmente serve cada ingrediente separadamente.

Você mistura, modifica, acrescenta aquilo que já conhece e cria uma receita própria.

A antropofagia cultural funcionava de maneira semelhante.

Tarsila conhecia as vanguardas europeias. Mas também conhecia o Brasil.

Então, sua obra nasce justamente desse encontro.

Por isso, Abaporu não representa simplesmente uma ruptura com a Europa. Ele também mostra como referências internacionais podiam ser transformadas dentro de uma experiência artística brasileira.

Antropofagia: quando duas pinturas se encontram

Um ano depois de Abaporu, Tarsila pintou Antropofagia, uma obra que reúne elementos de trabalhos anteriores, especialmente Abaporu e A Negra.

As figuras enormes, a vegetação e as formas distorcidas criam novamente um universo que parece ao mesmo tempo familiar e impossível.

É uma boa maneira de perceber que Tarsila não estava simplesmente pintando aquilo que via.

Ela estava construindo um imaginário.

E esse imaginário se tornou uma das marcas mais importantes de sua obra.

Tarsila também pintou trabalhadores

Se alguém conhece apenas as pinturas mais coloridas e imaginativas de Tarsila, pode ter a impressão de que toda a sua produção seguia esse mesmo caminho.

Mas, na década de 1930, sua pintura passou por uma mudança importante.

Depois de uma viagem à União Soviética e do contato com questões sociais e políticas, Tarsila passou a produzir obras voltadas para temas relacionados ao trabalho e às desigualdades sociais.

É desse período Operários, de 1933.

A pintura mostra uma grande quantidade de rostos diante de um cenário industrial. As cores e formas continuam importantes, mas a preocupação é outra.

Tarsila passa a olhar para o Brasil também através das pessoas que trabalham e das transformações provocadas pela industrialização.

Sua obra, portanto, não pode ser reduzida às paisagens coloridas e aos personagens fantásticos.

5 obras de Tarsila para conhecer

Se você quiser começar a olhar para a obra de Tarsila com mais atenção, estas cinco são um bom caminho.

1. A Negra — 1923

Uma das obras importantes para compreender o desenvolvimento da linguagem que Tarsila apresentaria posteriormente.

A figura ocupa grande parte da composição e chama atenção pelas proporções e pela presença marcante.

2. Abaporu — 1928

Provavelmente sua obra mais conhecida.

Além de ser visualmente inesquecível, tornou-se uma referência fundamental para o movimento antropofágico.

3. Antropofagia — 1929

Reúne elementos de Abaporu e A Negra e ajuda a compreender a fase antropofágica da artista.

4. Operários — 1933

Uma mudança importante em sua produção.

A obra apresenta uma multidão de trabalhadores diante de um cenário industrial e evidencia a aproximação de Tarsila com questões sociais.

5. O Mamoeiro — 1925

Uma ótima pintura para observar a relação de Tarsila com as paisagens brasileiras.

A composição apresenta uma cena cotidiana transformada pelas formas e cores características da artista.

Por que Tarsila continua tão presente?

Talvez porque suas pinturas sejam fáceis de reconhecer, mas difíceis de esgotar.

Uma criança pode olhar para Abaporu e achar aquela figura curiosa. Um estudante pode enxergar nela um símbolo do modernismo.

Um historiador da arte pode discutir suas relações com as vanguardas europeias. Outra pessoa pode simplesmente se encantar com as cores.

Uma mesma obra pode provocar leituras diferentes. E isso é uma das coisas mais interessantes da arte.

Não precisamos conhecer todos os termos técnicos para apreciar uma pintura. Podemos começar simplesmente olhando.

O que essa imagem me faz sentir? O que chama minha atenção?

Por que o artista escolheu essas cores?

Por que essa paisagem parece familiar e estranha ao mesmo tempo?

Às vezes, aprender sobre arte começa justamente com uma pergunta.

Tarsila e o Brasil que aprendemos a enxergar de outro jeito

Talvez seja essa a maior contribuição de Tarsila para quem olha sua obra hoje, pois ela nos mostra que representar um país não significa simplesmente copiar aquilo que existe.

É também escolher o que queremos destacar, transformar, exagerar e imaginar.

Tarsila olhou para o Brasil e criou uma linguagem própria para falar sobre ele.

Por isso, quase cem anos depois, suas pinturas continuam aparecendo em livros, exposições, escolas, produtos culturais e na memória de quem aprende sobre arte brasileira.

E talvez seja impossível olhar para um Abaporu sem lembrar que aquela figura estranha ajudou a transformar a maneira como o Brasil pensava sua própria cultura.

Dica de passeio cultural:

Se você ficou interessado na vida e obra de Tarsila do Amaral, programe-se para comparecer à exposição “O Brasil de Tarsila”, que está em cartaz no Nubank Arte Lab (no Conjunto Nacional, em São Paulo), celebrando o seu legado com mais de 10 salas interativas e projeções em 360 graus.

Para mais informações acesse https://feverup.com/pt/sao-paulo

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